terça-feira, 22 de novembro de 2016

Automutilação - um relato por alguém que vive em pé de guerra com a tristeza.

Tudo começa com um pensamento momentâneo.
"E se... Será que ajuda?"
Logo você se adverte por sequer considerar tal ato.
"Não, é ridículo. Eu estou bem. Só estou exagerando."
Só estou exagerando...
No entanto, os motivos e as circunstâncias...
"Você é fraca."
"Você só quer chamar atenção"
"Você dramatiza muito."
"Você não tenta o suficiente."
E eles continuam vindo, com mais força, com mais intensidade...
"Eu não sei mais o que eu quero."
"Eu não aguento mais."
"Acabou."
E, então, nada mais sobra, nada mais vale a pena, nada mais serve.
Só a dor.
A dor começa a tomar formas que nunca tomou antes.
Começa a tomar uma forma quase humana. Uma forma humana que conversa com você.
E insiste.
"Você sabe que você quer. Sabe que vai se sentir bem. Só uma vez."
E a angústia é tão grande. A angústia já se compara a um tiro no peito. Já ultrapassa todos os limites do sofrimento.
Corta.
O primeiro é fraco. Você ainda não tem coragem o suficiente para usar tanta força assim. Tem medo. Medo do que vai sentir. Medo das marcas. Medo do julgamento.
Corta.
A dor se intensifica. E as lágrimas também. E a angústia. Mas, de alguma maneira, os cortes não te prejudicam.
Corta.
Eles te ajudam a amenizar a dor, por mais irônico que isso seja. A dor mental e a ansiedade já são tão grandes que superam a dor física.
Corta. Corta. Corta.
Logo, você se acostuma. Não só se acostuma, mas se sente confortável. A dor física começa a tomar conta de você. Mas você não se importa. Finalmente a angústia está indo embora. Finalmente todo o julgamento está indo embora. Toda a fraqueza está indo embora.
Corta.
Finalmente, você está livre.

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